
Raphael Bontempo
Produção britânica do diretor Rolland Joffé, o filme “Gritos do Silêncio” (The Killing Fields), de 1984, vencedor de três Oscars (Melhor Ator Coadjuvante para Haing Ngor, Melhor Fotografia e Melhor Edição), retrata o passado bélico que envolve EUA, Camboja e Vietnã; a partir de Sydney Schanberg, corresponde de guerra do Jornal The New York Times, enviado à nação cambojana.
Sydney cobre os embates entre as forças governamentais e a resistência do Khmer Vermelho – partido comunista vietnamita liderado por Pol Pot, que ocupa militarmente o Camboja. Os acontecimentos se desdobram com o término da Guerra do Vietnã, em 1975, dois anos após os Estados Unidos recuarem suas tropas do sudeste da Ásia.

O correspondente ianque recebe uma dose cavalar de heroísmo romântico. É o norte-americano que se “apaixona pelo país asiático” – esta mensagem é transmitida por Sydney nas primeiras cenas do filme. O jornalista é como um paladino: portador da benemerência e arauto da denúncia social. O repórter que se desvincula da cultura mãe; como um antropólogo, revestido em alteridade. Ele serpenteia pelo terreno conturbado com Dith Pran, jornalista cambojano que atua como seu porta-voz na apuração. Ambos acompanham in loco as explosões e atrocidades. Os espectadores são conduzidos pela jornada da dupla, que protagoniza o enredo.
A atuação comovente de Sydney, entretanto, não oculta o emblema do Ocidente.
“Gritos do Silêncio” é reflexo do cenário geopolítico no qual foi produzido. Remonta ao conflito militar e ideológico que repartiu o mundo em zonas de influência. Forças ambivalentes travavam intensas disputas propagandistas em nome da hegemonia do mundo. A bem conhecida “Guerra Fria”, que colocava em jogo os interesses norte-americanos e soviéticos, é reproduzida no filme sob o altruísmo de Sydney, que representa a soberania do viés capitalista – enquanto modelo ideal – situando os comunistas como os antagonistas da obra: os “inimigos ferozes do desenvolvimento”.

A primazia da cultura ocidental pode ser verificada nos aspectos mais sutis, e nos posicionamentos mais expressos da produção: as falas não legendadas para grande público do dialeto khmer, traduzidas por Dith para o anglo-saxão, transmitem a idéia de se “descodificar o que é estranho” para que os espectadores possam compreender o que é “familiar”: ou seja, a cultura ianque. A trilha sonora que acompanha as investidas do Kmher é intencionalmente tensa, e pontua o clímax do filme. De forma mais categórica, as cenas dos pelotões de fuzilamento perpetrados pelos comunistas deixam nítidos os algozes da produção.
Filmes de guerra prestam-se como mecanismos culturais para que a Indústria Cinematográfica recrie a configuração histórica, segundo o que ela admite como a “verdade” e sobre a qual ela deseja preconizar como a História. Hollywood se utilizou de várias produções para definir os atores do passado, e assim, vender sua visão de mundo. A proporção de filmes segue o variado numero de episódios em que os EUA estiveram envolvidos. Sobre o Vietnã, país vizinho ao Camboja, um deles é “Bom Dia, Vietnã” (Good Morning, Vietnam), de 1987, vencedor do Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator (Robin Willians) que orbita entre a comédia e o drama ao utilizar como “pano de fundo” a guerra considerada por muitos como maior fracasso militar dos norte-americanos.

A diferença é que aqui não temos o correspondente, mas a biografia do aeronauta Adrian Cronauer (Robin Willians) que é recrutado para trabalhar na Rádio Saigon, no Vietnã, operada pelos americanos. A locução de Cronauer conquista popularidade em pouco tempo, o que desperta a inveja de Steven Hauk – tenente em hierarquia superior que passa a persegui-lo.
A representatividade ocidental do homem que “sai dos Estados Unidos e migra para o Vietnã” é posicionada no filme de forma positiva: como um modelo ideal, mas que ainda assim, incomoda. A paixão que Adrian sente pela vietnamita Trinh (Chintara Sukapatana) deve ser entendida, ironicamente, como metáfora de cordialidade nacional dos EUA para com o Vietnã. Algo próximo do que correspondente Sydney Schanberg dizia sentir pelo Camboja. Em entrevistas presentes no DVD, o “verdadeiro” Adrian revela que muito do que foi retratado do filme destoa da realidade: ao contrário da personagem, Adrian jamais tivera contato com um vietcong.
O filme “Apocalipse Now” (1979) do diretor Francis Ford Coppola, se estreita da realidade bélica entre norte-americanos e cambojanos. Vencedor do Oscar nas categorias de Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som, a despesa dessa ambiciosa produção quase resultou na falência de American Zoetrope, estúdio pessoal de Coppola. O diretor, que havia se consagrado pelas duas versões de “O Poderoso Chefão”, desfecha a década de 70 contando a jornada do capitão Benjamin Willard (Martin Sheen), designado pelo comando do exército norte-americano para as selvas do Camboja, a fim de eliminar o coronel Kurtz (Marlon Brando), que aparentemente ensandeceu e se transformou em empecilho para os planos militares dos Estados Unidos

Ao contrário da temática enviesada que constitue os longas-metragens de guerra, a verdadeira batalha que se trava neste filme é introspectiva: do homem contra a própria sanidade. Como avalia em seu artigo João Luís de Almeida Machado, editor do Portal Planeta Educação, “Apocalypse Now’ nos coloca no centro de uma disputa travada entre dois homens em estado de transe absoluto, alterados pelo contexto brutal em que se envolveram enquanto soldados de uma luta inglória e injusta. Tanto o coronel Kurtz quanto o capitão Willard são demonstrativos de como vivemos no limite entre a lucidez e a loucura”.
Baseado no livro “Coração das Trevas” (Heart of Darkness), de Joseph Conrad, o filme faz prospecção no imaginário. Mostra como o delírio toma corpo da realidade, num cenário onde a existência humana perde seu significado simbólico. O teor surreal da obra é avesso à comicidade de “Bom Dia, Vietna” ou mesmo o drama romanceado de “Gritos do Silêncio”. Calcado numa reflexão filosófica, Coppolla deixa o público entrever as angústias que a humanidade vivencia com a guerra. Transporta a tensão e o medo para quem assiste: sentimentos que sequer abalam o “impassível” repórter do jornal americano. O destemor da ideologia ocidental se inscreve na Indústria, blindando o personagem contra os estrondos do Vietnã.
Acompanhe o trailer do filme “Gritos do silêncio”


















